sexta-feira, 27 de novembro de 2015

"Objectivo Marte", Karel Külle (pseudónimo de Carlos Sardinha) // "Objective Mars", Karel Külle (pseudonym of Carlos Sardinha)


A publicação desta semana de 23 a 28 de Novembro de 2015 é uma obra de ficção científica nacional contemporânea da fase final da "idade de ouro" do género no mundo anglo-saxónico e de transição para a ficção científica de Nova Vaga dos anos '60 e '70 (a "idade de ouro" deste género é considerada como tendo sido entre 1938, fim da "era da pulp" na fc publicada em imprensa do género, e 1946, os anos '50 sendo considerados "só" época de transição para muitos fãs e críticos do género, embora alguns como Robert Silverberg, autor do género, co-organizador com Lima Rodrigues de uma versão incluíndo textos de autores Portugueses da colectânea do género Terrestres e Estranhos publicada pela Galeria Panorama em 1968 e autor hoje "em contrato" com a Antagonista Editora para publicação em Portugal, achasse que os anos '50 fossem uma continuidade da "idade de ouro" e até os anos mais "de ouro" e típicos da era). Publicado em 1959 pela colecção EP - Ficção Científica da Editorial Popular de F. Bento & Correia Lda. de Lisboa, este foi o segundo relativo sucesso do autor Karel Külle. Mas quem era este autor de nome vagamente nórdico-centro-europeu (Karel é o equivalente de Carlos checo e holandês, Külle surgindo, normalmente sem os pontos conhecidos como umlaut em Alemão, em Sueco ou Checo, existindo um apelido similar, com umlaut sobre o u, Ülle, na Estónia)? Não um qualquer autor estrangeiro, mas, por via de mais um caso da prática (que sem discutirmos já vimos algumas vezes até agora) da pseudo-tradução (em que um autor Português, para evitar censura, que durante o Estado Novo tendia a "chatear" mais autores nacionais que estrangeiros, ou para evitar o "estigma" da escrita em género ditos "menores" como policial, fantástico ou ficção científica ao "bom-nome", finge estar a traduzir um autor estrangeiro, o verdadeiro autor tendendo a surgir indicado como tradutor mas por vezes para maior despiste, surgindo o nome de um tradutor profissional da mesma editora), de um autor Portuguesíssimo. Neste caso (como frequente quando um nome que não surge em muitas traduções surge numa mão cheia de obras) o tradutor é o verdadeiro nome por detrás de Karel Külle: Carlos Filomeno dos Anjos de Sousa Sardinha, que em 1958 havia "traduzido" o policial A Grande Ameaça sob o pseudónimo de Russel Randall (para a Agência Portuguesa de Revistas), e antes de "criar" Karel Külle já havia produzido ficção científica também em 1959 como Pierre de Juvissy (nome que terá sido composto da conjugação de largos em Juvisy-sur-Orge, alguns quilómetros a sul de Paris, com nomes de Pierres, o que junto com a inspiração nórdico-balto-eslava de Karel Külle poderão indicar que estamos ante um autor viajado ou pelo menos culto quanto ao exterior), o romance Se todos os anjos voassem... (para a editora Popular), e ainda antes de Objectivo Marte escreveu (com um pouco menos de vendas e visibilidade, visibilidade no nível de obra 'pulp popular' entenda-se) Bula Matari. 1959, o seu ano mais produtivo como romancista (ou "pseudo-tradutor") acabou com o último romance de Külle, Tigres no Céu.
Carlos Sardinha foi um erudito e intelectual de respeito, que em 1967 dirigiria a revista dedicada a S. Tomé e Príncipe chamada Equador. Sardinha tinha um grande interesse em questões e problemas coloniais (também o demonstra o título dado a Bula Matari; era o nome que os nativos Congoleses deram ao jornalista Henry Morton Stanley quando lá andou em busca do missionário e explorador David Linvingston, que cumprimentou com o famoso "Dr. Livingston, suponho?", significando "Parte Pedras" devido a ele frequentemente auxiliar os guias nativos a partir pedras pelo caminho, havendo discussão se a alcunha era dada como louvar ou ironia ante um branco que se "rebaixava" a fazer trabalho para trabalhadores negros). Um leve (e nada panfletário) elemento de crítica social e (no caso da sua ficção científica) analogia e alegoria da situação colonial portuguesa e geral surgem na obra ficcional "traduzida" pelo autor. Sardinha foi desde a sua primeira obra, ainda no policial, um autor relativamente bem vendido para um autor das edições baratas "de género" que eram a "literatura de cordel" do Portugal de meados do século XX, e um caso ainda mais curioso tendo em conta que um erudito de pouca visibilidade e trabalhador de editoras (primeiro da Agência Portuguesa de Revistas e depois de outras) que nem sequer era o nome que surgia na capa dos livros que ele próprio escrevia conseguia ser lido e apreciado por um certo número de leitores jovens e de classe média e média-baixa numa altura de alfabetização ainda baixa em Portugal e em que os livros ainda eram um luxo (embora este tipo de edições fossem das mais acessíveis. Assim, Carlos Sardinha tornou-se no seu país um vagamente conhecido autor de policial e de ficção científica sem as pessoas repararem no seu nome (disfarçado de "mero" tradutor). E podemos perguntar-nos quantos fãs deste género ainda marginal em Portugal não o terão lido na juventude sem saberem ler um autor nacional, e terão sido influenciado para criar no género vagamente pulp e aventureiro de ficção científica em que ele criou literatura.
O que faz de Objectivo Marte um marco na literatura de ficção científica em Portugal é que é a primeira vez na literatura nacional do género que literatura do género portuguesa vai para o espaço voluntariamente em em máquinas mais ou menos realistas, não envolvendo invenções feitas na terra, nem "armas do juízo final" ou "raios da morte" (que até no cinema português já haviam aparecido em 1941), intervenção dos ETs em Portugal (como na peça radiofónica A Invasão dos Marcianos de Matos Maia de 1958), ou viagens ao espaço por acidente (do tipo balão setecentista voado para o espaço exterior por acidente de História Autêntica do Planeta Marte do nosso já conhecido Nunes da Mata em 1921) ou viagens autênticas mas em máquinas aerostáticas primitivas que nunca de facto poderiam voar tão longe da terra (em poemas herói-cómicos dos séculos XVIII e XIX como O Foguetário de Pedro de Azevedo Tojal, A Maquina Aerostatica de João Robert da Fond, e Viagens no Sytema Planetário de Patrocínio da Costa), mas também pela forma como se faz analogia (como em todos os romances do género de "Karel Külle") com a colonização africana de Portugal, que surge aqui por alegoria analisada intelectualmente de uma forma tão crítica como não propriamente apelando a descolonização. O extraterrestres, que surgem como antropomórficos e de civilizações algo utópicas (nas obras de Külle como na de Juvissy) são assim os Africanos, com os exploradores do espaço sendo os colonizadores Portugueses. O estilo de Carlos Sardinha, além de pulp e aventureiro como já dito, é também não demasiado preciso na parte técnica e científica das máquinas, como a maioria dos autores do género (com excepções como Júlio Verne ou o também cientista Isaac Azimov). Enquanto Nunes da Mata (como Verne) é um entusiasta da ciência e da matemática e isso é claro no cuidado apresentado no realismo da sua poesia narrativa ou prosa (mesmo quando aparentemente fantástica como na História Autêntica do Planeta Marte), enquanto Sardinha (como H. G. Wells) cria só o básico para sustentar as invenções ou eventos que mostra e está principalmente interessado nestes enredos pela alegoria ou comentário sociais que podem dar.
Cartoon contrastando os modos de fc de Verne e Wells (do sítio Hark! A Vagrant)
O enredo em si, envolve a partida de um vaivém chamado «Argonauta I», numa partida, com público assistindo e tudo, descrita de uma forma bastante realista para quem vê hoje as imagens da partida dos foguetões soviéticos ou americanos («Na base do foguetão, as chamas estralejavam. O «Argonauta I» moveu-se lentamente, como se quisesse desafiar a emoção dos assintentes. Sùbitamente [ainda influência da grafia 1911-1942 do Português], como que tomado de estranho poder, investiu contra o céu, transformando-se numa remota safira no firmamento.»). Além da «mais fantástica aventura  de todos os tempos: A conquista do Sistema Solar!» (como diz o livro logo a seguir da descrição da partida), existe a dinâmica romântica criada por um casal formado por dois dos astronautas do «Argonauta I». Sem mais revelações de enredo, livro recomendado, infelizmente raro que ainda se consegue encontrar à venda online.

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